ILUMINURAS
Artur Rimbaud
DEPOIS DO DILÚVIO Assim que a idéia do Dilúvio sossegou, Uma lebre se deteve entre trevos e campânulas cambiantes, e fez sua prece ao arco-íris, através da teia de aranha. Oh! as pedras preciosas que se escondiam,
- e as flores que já olhavam. Na grande rua suja açougues se abriram, e barcos foram lançados nos degraus do mar lá no alto como nas gravuras. O sangue correu, no Barba-Azul,
- nos matadouros,
- nos circos, onde o selo de Deus empalidecia as janelas. O sangue e o leite correram. Castores construíram. "Mazagrans" enfumaçaram os botecos. Na imensa mansão de vidros ainda gotejantes, meninos de luto admiram imagens maravilhosas.
Uma porta bateu,
- e sobre a praça da vila, o menino girou os braços, compreendidos os cata-ventos e galos dos campanários de toda parte, sob um temporal cintilante. Madame *** instalou um piano nos Alpes. A missa e as primeiras comunhões foram celebradas nos cem mil altares da catedral. As caravanas partiram. E o Splendide-Hotel foi erguido no caos de gelo e da noite polar. Desde então, a Lua ouviu o uivo dos chacais nos desertos de timo,
- e écoglas de tamancos grunhindo no pomar. Depois, na floresta violeta, florescente, Êucaris me disse que era a primavera.
- Lago, salte,
- Espuma, role sobre aponte e por cima desses bosques;
- panos negros e órgãos,
- trovão e raio,
- subam e rolem;
- águas e tristeza, subam e renovem esses Dilúvios. Pois desde que dissiparam,
- Oh as pedras preciosas se enterrando, e as flores se abrindo!
- tudo é um tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.
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INFANCIA
INFÂNCIA
I
Este ídolo, de olhos negros e crina amarela, sem pais nem corte, mais nobre do que fábulas, mexicanas e flamengas; seu domínio, arrogância verdeazul, se espraia por praias batizadas, por ondas sem navios, com ferozes nomes gregos, celtas, eslavos. Nos confins da floresta
- flores de sonho tilintam, explodem, resplendem,
- menino de lábios laranja, cruzando as pernas no dilúvio branco que brota dos prados, sua nudez em sombra, de viés, vestida de arco-íris, mar, e flora. Damas que giram nos terraços à beira-mar; infantas e gigantas, negras e soberbas no musgo verdegris, jóias eretas no solo fértil dos bosquezinhos e jardinzinhos em degelo
- mães jovens e irmãs mais velhas, cheias de olhares peregrinos, sultanas, princesas de trajes e passos tirânicos, estrangeirinhas e pessoas docemente infelizes. Que tédio, a hora do "que corpo" e do "meu bem".
I
Este ídolo, de olhos negros e crina amarela, sem pais nem corte, mais nobre do que fábulas, mexicanas e flamengas; seu domínio, arrogância verdeazul, se espraia por praias batizadas, por ondas sem navios, com ferozes nomes gregos, celtas, eslavos. Nos confins da floresta
- flores de sonho tilintam, explodem, resplendem,
- menino de lábios laranja, cruzando as pernas no dilúvio branco que brota dos prados, sua nudez em sombra, de viés, vestida de arco-íris, mar, e flora. Damas que giram nos terraços à beira-mar; infantas e gigantas, negras e soberbas no musgo verdegris, jóias eretas no solo fértil dos bosquezinhos e jardinzinhos em degelo
- mães jovens e irmãs mais velhas, cheias de olhares peregrinos, sultanas, princesas de trajes e passos tirânicos, estrangeirinhas e pessoas docemente infelizes. Que tédio, a hora do "que corpo" e do "meu bem".
INFANCIA
INFÂNCIA
II
É ela, a pequena morta, atrás das roseiras.
- A jovem mãe já falecida desce a sacada.
- A carruagem do primo grita sobre o
- O irmãozinho está (lá na Índia!) diante do poente, num campo de cravos.
- Os velhos foram sepultados em pé na muralha de alelises. O enxame de folhas douradas rodeia a mansão do general. Eles estão no Sul.
- Segue-se a rua vermelha até chegar ao albergue vazio, O castelo está a venda, as persianas estão caindo.
- O padre deve ter levado a chave da igreja.
- Ao redor do parque, as casas dos vigias estão vazias. As paliçadas são tão altas que só se vê os cimos sussurrando. Além disso, não há nada lá dentro para ser visto. prados remontam às vilas sem galos, sem bigornas. A represa está aberta. Ó os Calvários e os moinhos do deserto, as ilhas e as moendas. Flores mágicas zumbiam. As colinas o ninaram. Bichos circulavam sobre o alto mar feito eternas lágrimas quentes.
II
É ela, a pequena morta, atrás das roseiras.
- A jovem mãe já falecida desce a sacada.
- A carruagem do primo grita sobre o
- O irmãozinho está (lá na Índia!) diante do poente, num campo de cravos.
- Os velhos foram sepultados em pé na muralha de alelises. O enxame de folhas douradas rodeia a mansão do general. Eles estão no Sul.
- Segue-se a rua vermelha até chegar ao albergue vazio, O castelo está a venda, as persianas estão caindo.
- O padre deve ter levado a chave da igreja.
- Ao redor do parque, as casas dos vigias estão vazias. As paliçadas são tão altas que só se vê os cimos sussurrando. Além disso, não há nada lá dentro para ser visto. prados remontam às vilas sem galos, sem bigornas. A represa está aberta. Ó os Calvários e os moinhos do deserto, as ilhas e as moendas. Flores mágicas zumbiam. As colinas o ninaram. Bichos circulavam sobre o alto mar feito eternas lágrimas quentes.
INFANCIA
INFÂNCIA
III Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro. Tem um relógio que não toca nunca. Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos. Tem uma catedral que sobe e um lago que desce. Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada. Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta. E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear.
III Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro. Tem um relógio que não toca nunca. Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos. Tem uma catedral que sobe e um lago que desce. Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada. Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta. E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear.
INFANCIA
INFÂNCIA
IV Eu sou o santo, rezando no terraço,
- como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina. Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca. Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol. Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu. Os caminhos são ásperos. Montesinhos se enchem de giestas. O ar está parado. Que longe os pássaros e as fontes! Isso só pode ser o fim do mundo, avançando.
IV Eu sou o santo, rezando no terraço,
- como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina. Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca. Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol. Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu. Os caminhos são ásperos. Montesinhos se enchem de giestas. O ar está parado. Que longe os pássaros e as fontes! Isso só pode ser o fim do mundo, avançando.
INFANCIA
INFÂNCIA
V Que me aluguem enfim este túmulo caiado, com linhas de cimento em relevo
- bem fundo na terra. Cotovelos na mesa, a lâmpada ilumina muito bem esses jornais que releio de idiota, esses livros sem interesse.
- A uma distância enorme acima da minha sala subterrânea, casas se enraízam, brumas se reúnem. A lama é vermelha ou negra. Cidade monstro, noite sem fim! Menos alto, os esgotos. Dos lados, apenas espessura do globo. Talvez abismos de azul, poços de fogo. São talvez nestes níveis que luas e cometas, fábulas e mares, se encontrem. Nas horas amargas, imagino bolas de safira, de metal. Eu sou o mestre do silêncio. Por que uma aparência de respiradouro desbotaria num canto da abóbada?
V Que me aluguem enfim este túmulo caiado, com linhas de cimento em relevo
- bem fundo na terra. Cotovelos na mesa, a lâmpada ilumina muito bem esses jornais que releio de idiota, esses livros sem interesse.
- A uma distância enorme acima da minha sala subterrânea, casas se enraízam, brumas se reúnem. A lama é vermelha ou negra. Cidade monstro, noite sem fim! Menos alto, os esgotos. Dos lados, apenas espessura do globo. Talvez abismos de azul, poços de fogo. São talvez nestes níveis que luas e cometas, fábulas e mares, se encontrem. Nas horas amargas, imagino bolas de safira, de metal. Eu sou o mestre do silêncio. Por que uma aparência de respiradouro desbotaria num canto da abóbada?
CONTO
CONTO
Um Príncipe se aborrecia por só se dedicar a perfeição de generosidades vulgares. Ele previa estonteantes revoluções do amor, e desconfiava que suas mulheres pudessem bem mais que uma complacência enfeitada de céu e luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração de piedade, ele queria. Pelo menos ele tinha um grande poder humano. Todas as mulheres que o conheceram foram assassinadas. Saque no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele nem encomendava outras.
- As mulheres reapareciam. Ele matou todos que o seguiam, depois da caça ou das librações.
- Todos o seguiam. Ele se divertiu degolando os bichos de luxo. Mandou incendiar palácios. Avançava nas pessoas e as decepava em pedaços.
- A multidão, os telhados dourados, bichos bonitos, ainda existiam. Pode alguém se extasiar na destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém se ofereceu ao concurso de suas vistas. Uma noite ele cavalgava confiante. Um Gênio surgiu, beleza inefável, inconfessável mesmo. De sua fisionomia e sua presença emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! De alegria inominável, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram, quem sabe, em saúde essencial. Como não morreriam disso? Eles, enfim, morreram juntos. Mas o Príncipe morreu, em seu palácio, numa idade normal. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe. Ao nosso desejo falta a música sábia.
Um Príncipe se aborrecia por só se dedicar a perfeição de generosidades vulgares. Ele previa estonteantes revoluções do amor, e desconfiava que suas mulheres pudessem bem mais que uma complacência enfeitada de céu e luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração de piedade, ele queria. Pelo menos ele tinha um grande poder humano. Todas as mulheres que o conheceram foram assassinadas. Saque no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele nem encomendava outras.
- As mulheres reapareciam. Ele matou todos que o seguiam, depois da caça ou das librações.
- Todos o seguiam. Ele se divertiu degolando os bichos de luxo. Mandou incendiar palácios. Avançava nas pessoas e as decepava em pedaços.
- A multidão, os telhados dourados, bichos bonitos, ainda existiam. Pode alguém se extasiar na destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém se ofereceu ao concurso de suas vistas. Uma noite ele cavalgava confiante. Um Gênio surgiu, beleza inefável, inconfessável mesmo. De sua fisionomia e sua presença emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! De alegria inominável, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram, quem sabe, em saúde essencial. Como não morreriam disso? Eles, enfim, morreram juntos. Mas o Príncipe morreu, em seu palácio, numa idade normal. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe. Ao nosso desejo falta a música sábia.
DESFILE
DESFILE
Patifes sólidos. Muitos já exploram vossos mundos. Sem carências, e pouca pressa em aplicar suas brilhantes faculdades e sua experiência de vossas consciências. Que homens maduros! Olhos vidrados como noite de verão, vermelhos e negros, tricolores, aço salpicado de estrelas douradas; faces disformes, plúmbeas, pálidas, em brasa; rouquidões burlescas! os passos cruéis dos ouropéis!
- Alguns são jovens,
- mas como encarariam Querubim?
- munidos de vozes medonhas e truques perigosos. São enviados amarrados pras cidades, fantasiados com um luxo que dá nojo. Oh! O mais violento Paraíso da careta furiosa! Nada comparável a seus Faquires e outra tantas teatrais bufoneiras. Em trajes improvisados com sabor de pesadelo, encenam litanias, tragédias de malandros e semideuses cheios de graça, como jamais foram a história ou as religiões. Chineses, Hotentotes, ciganos, otários, hienas, Moleques, velhas demências, demônios sinistros, misturam os modos populares, maternais, com poses e ternuras bestiais. Interpretariam peças novas, canções "para moças". Mestres jograis, eles transformam o lugar e as pessoas, e usam a comédia magnética. Os olhos ardem, o sangue canta, ossos se dilatam, escorrem lágrimas e fitas de carmim. Sua folia ou seu terror dura um minuto, ou meses inteiros. Só eu tenho a chave desse desfile selvagem.
Patifes sólidos. Muitos já exploram vossos mundos. Sem carências, e pouca pressa em aplicar suas brilhantes faculdades e sua experiência de vossas consciências. Que homens maduros! Olhos vidrados como noite de verão, vermelhos e negros, tricolores, aço salpicado de estrelas douradas; faces disformes, plúmbeas, pálidas, em brasa; rouquidões burlescas! os passos cruéis dos ouropéis!
- Alguns são jovens,
- mas como encarariam Querubim?
- munidos de vozes medonhas e truques perigosos. São enviados amarrados pras cidades, fantasiados com um luxo que dá nojo. Oh! O mais violento Paraíso da careta furiosa! Nada comparável a seus Faquires e outra tantas teatrais bufoneiras. Em trajes improvisados com sabor de pesadelo, encenam litanias, tragédias de malandros e semideuses cheios de graça, como jamais foram a história ou as religiões. Chineses, Hotentotes, ciganos, otários, hienas, Moleques, velhas demências, demônios sinistros, misturam os modos populares, maternais, com poses e ternuras bestiais. Interpretariam peças novas, canções "para moças". Mestres jograis, eles transformam o lugar e as pessoas, e usam a comédia magnética. Os olhos ardem, o sangue canta, ossos se dilatam, escorrem lágrimas e fitas de carmim. Sua folia ou seu terror dura um minuto, ou meses inteiros. Só eu tenho a chave desse desfile selvagem.
ANTIQUE
ANTIQUE
Gracioso filho de Pan! Em volta de tua fronte coroada de florzinhas e bagas teus olhos, gemas preciosas, se movem. Manchada de fezes cinzas, a cova das faces. Tuas presas reluzem. Teu peitinho parece uma cítara, sininhos circulam no bronze dos teus braços. Teu coração bate nesse ventre onde dorme o duplo sexo. Passeie pela noite, mexe essa coxa, docemente, mexe essa outra, e essa perna torta.
Gracioso filho de Pan! Em volta de tua fronte coroada de florzinhas e bagas teus olhos, gemas preciosas, se movem. Manchada de fezes cinzas, a cova das faces. Tuas presas reluzem. Teu peitinho parece uma cítara, sininhos circulam no bronze dos teus braços. Teu coração bate nesse ventre onde dorme o duplo sexo. Passeie pela noite, mexe essa coxa, docemente, mexe essa outra, e essa perna torta.
BEING BEAUTEOUS
BEING BEAUTEOUS
Diante de uma neve, um Ser de Beleza de alto talhe. Sibilações de morte e os círculos de música surda levitam seu corpo adorado, e ele se expande e treme como um espectro; feridas escarlates e negras rebentam nas carnes soberbas. As cores próprias da vida ficam foscas, dançam e se desatam ao redor da Visão, sobre o estaleiro. E os frissons se elevam e rugem, e o sabor delirante desses efeitos se estocam com as sibilações de morte e as músicas roucas que o mundo, ao nosso encalço, lança sobre nossa mãe de beleza,
- ela levanta, ela recua. Oh! nossos ossos revestidos por um novo corpo de amor.
***
Ó a face cinza, escudo de crina, braços de cristal! O canhão de que me atiro nessa briga das árvores com a brisa!
Diante de uma neve, um Ser de Beleza de alto talhe. Sibilações de morte e os círculos de música surda levitam seu corpo adorado, e ele se expande e treme como um espectro; feridas escarlates e negras rebentam nas carnes soberbas. As cores próprias da vida ficam foscas, dançam e se desatam ao redor da Visão, sobre o estaleiro. E os frissons se elevam e rugem, e o sabor delirante desses efeitos se estocam com as sibilações de morte e as músicas roucas que o mundo, ao nosso encalço, lança sobre nossa mãe de beleza,
- ela levanta, ela recua. Oh! nossos ossos revestidos por um novo corpo de amor.
***
Ó a face cinza, escudo de crina, braços de cristal! O canhão de que me atiro nessa briga das árvores com a brisa!
BEING BEAUTEOUS
BEING BEAUTEOUS
Diante de uma neve, um Ser de Beleza de alto talhe. Sibilações de morte e os círculos de música surda levitam seu corpo adorado, e ele se expande e treme como um espectro; feridas escarlates e negras rebentam nas carnes soberbas. As cores próprias da vida ficam foscas, dançam e se desatam ao redor da Visão, sobre o estaleiro. E os frissons se elevam e rugem, e o sabor delirante desses efeitos se estocam com as sibilações de morte e as músicas roucas que o mundo, ao nosso encalço, lança sobre nossa mãe de beleza,
- ela levanta, ela recua. Oh! nossos ossos revestidos por um novo corpo de amor.
***
Ó a face cinza, escudo de crina, braços de cristal! O canhão de que me atiro nessa briga das árvores com a brisa!
Diante de uma neve, um Ser de Beleza de alto talhe. Sibilações de morte e os círculos de música surda levitam seu corpo adorado, e ele se expande e treme como um espectro; feridas escarlates e negras rebentam nas carnes soberbas. As cores próprias da vida ficam foscas, dançam e se desatam ao redor da Visão, sobre o estaleiro. E os frissons se elevam e rugem, e o sabor delirante desses efeitos se estocam com as sibilações de morte e as músicas roucas que o mundo, ao nosso encalço, lança sobre nossa mãe de beleza,
- ela levanta, ela recua. Oh! nossos ossos revestidos por um novo corpo de amor.
***
Ó a face cinza, escudo de crina, braços de cristal! O canhão de que me atiro nessa briga das árvores com a brisa!
VIDAS
VIDAS
I
Ó as enormes avenidas do país santo, os terraços do templo! O que foi feito do brâmane que me explicou os Provérbios? Desde então, ainda vejo as velhas de lá! Me lembro das horas de prata e do sol rente aos rios, a mão da campina no meu ombro, de nossas carícias de pé sobre planícies de pimenta.
- Um vôo de pombos escarlates troveja em volta de meu pensamento.
- Exilado aqui, tive um palco onde encenar as obras-primas dramáticas de todas as literaturas. Eu te mostraria as riquezas inauditas. Observo a história dos tesouros que encontrastes. Eu vejo a seqüência! Minha sabedoria é tão orgulhosa quanto o caos. Que é meu nada, perto do estupor que te espera?
I
Ó as enormes avenidas do país santo, os terraços do templo! O que foi feito do brâmane que me explicou os Provérbios? Desde então, ainda vejo as velhas de lá! Me lembro das horas de prata e do sol rente aos rios, a mão da campina no meu ombro, de nossas carícias de pé sobre planícies de pimenta.
- Um vôo de pombos escarlates troveja em volta de meu pensamento.
- Exilado aqui, tive um palco onde encenar as obras-primas dramáticas de todas as literaturas. Eu te mostraria as riquezas inauditas. Observo a história dos tesouros que encontrastes. Eu vejo a seqüência! Minha sabedoria é tão orgulhosa quanto o caos. Que é meu nada, perto do estupor que te espera?
VIDAS
VIDAS
II
Sou um inventor bem mais merecedor do que todos que me antecederam, um músico mesmo, que descobriu algo assim como a clave do amor. Hoje em dia, cavalheiro de uma campina amarga com um céu sóbrio, tento me emocionar com a lembrança da infância mendiga, da aprendizagem ou da chegada em tamancos, polêmicas, das cinco ou seis viuvezas, e de algumas bodas, onde minha cabeça dura me impediu de seguir o diapasão dos camaradas. Não choro mais minha velha porção de alegria divina: o ar sóbrio dessa campina amarga sacia e ativa meu ceticismo atroz. Mas, já que não se pode fazer uso desse ceticismo, e aliás, por estar envolvido num conflito novo,
- espero virar um louco muito perigoso.
II
Sou um inventor bem mais merecedor do que todos que me antecederam, um músico mesmo, que descobriu algo assim como a clave do amor. Hoje em dia, cavalheiro de uma campina amarga com um céu sóbrio, tento me emocionar com a lembrança da infância mendiga, da aprendizagem ou da chegada em tamancos, polêmicas, das cinco ou seis viuvezas, e de algumas bodas, onde minha cabeça dura me impediu de seguir o diapasão dos camaradas. Não choro mais minha velha porção de alegria divina: o ar sóbrio dessa campina amarga sacia e ativa meu ceticismo atroz. Mas, já que não se pode fazer uso desse ceticismo, e aliás, por estar envolvido num conflito novo,
- espero virar um louco muito perigoso.
VIDAS
VIDAS
III
Num celeiro aonde me prenderam aos doze anos, conheci o mundo e ilustrei a comédia humana. Numa adega aprendi a história. Em alguma festa de noite, numa cidade do Norte, cruzei todas as mulheres dos pintores antigos. Numa velha passagem de Paris, me ensinaram as ciências clássicas,. Numa morada magnífica cercada por todo o Oriente, terminei minha imensa obra e passei meu ilustre retiro. Fermentei meu sangue. Minha dívida foi remida. Nem quero mais pensar nisso. Sou mesmo do além, e nada de mensagens.
III
Num celeiro aonde me prenderam aos doze anos, conheci o mundo e ilustrei a comédia humana. Numa adega aprendi a história. Em alguma festa de noite, numa cidade do Norte, cruzei todas as mulheres dos pintores antigos. Numa velha passagem de Paris, me ensinaram as ciências clássicas,. Numa morada magnífica cercada por todo o Oriente, terminei minha imensa obra e passei meu ilustre retiro. Fermentei meu sangue. Minha dívida foi remida. Nem quero mais pensar nisso. Sou mesmo do além, e nada de mensagens.
PARTIDA
PARTIDA
Vi demais. A visão se revia pelos ares. Tive demais. Sons de cidade, à tarde, e ao sol, e sempre. Soube demais. As paradas da vida.
- Ó Sons e Visões! Partida entre afetos e ruídos novos!
Vi demais. A visão se revia pelos ares. Tive demais. Sons de cidade, à tarde, e ao sol, e sempre. Soube demais. As paradas da vida.
- Ó Sons e Visões! Partida entre afetos e ruídos novos!
REALEZA
REALEZA
Numa bela manhã, em meio à gente doce, um homem e uma mulher soberbos gritavam pela praça pública: "Amigos, quero que ela seja rainha!" Ela ria e tremia. Ele falava aos amigos de revelação, de uma provação terminada. Eles desmaiavam um no outro. De fato, eles foram reis por uma manhã inteira, em que tapeçarias carminadas se estenderam sobre as casas, e a tarde inteira, em que eles avançaram do lado do jardim das palmeiras.
Numa bela manhã, em meio à gente doce, um homem e uma mulher soberbos gritavam pela praça pública: "Amigos, quero que ela seja rainha!" Ela ria e tremia. Ele falava aos amigos de revelação, de uma provação terminada. Eles desmaiavam um no outro. De fato, eles foram reis por uma manhã inteira, em que tapeçarias carminadas se estenderam sobre as casas, e a tarde inteira, em que eles avançaram do lado do jardim das palmeiras.
UMA RAZAO
UMA RAZÃO
Um toque de seus dedos no tambor detona todos os sons e inicia a nova harmonia. Um passo seu é o levante de novos homens e sua marcha. Sua cabeça se vira: o novo amor! Sua cabeça se volta,
- o novo amor! "Mude nossa sorte, livre-se das pestes, a começar pelo tempo", cantam essas crianças. "Não importa onde, eleve a substância de nossas fortunas e desejos", lhe imploram. O sempre chegando, indo a todo canto.
Um toque de seus dedos no tambor detona todos os sons e inicia a nova harmonia. Um passo seu é o levante de novos homens e sua marcha. Sua cabeça se vira: o novo amor! Sua cabeça se volta,
- o novo amor! "Mude nossa sorte, livre-se das pestes, a começar pelo tempo", cantam essas crianças. "Não importa onde, eleve a substância de nossas fortunas e desejos", lhe imploram. O sempre chegando, indo a todo canto.
FRASES
FRASES
Quando se reduzir a um só bosque negro para nossos quatro olhos atônitos,
- a uma praia para duas crianças fiéis,
- a uma mansão musical para nossa clara simpatia,
- vou te encontrar. Haja aqui embaixo só um velho solitário, calmo e bonito, em meio a um "luxo incrível",
- vou estar a teus pés. Assim que eu realize todas as tuas fantasias,
- sendo eu aquela que sabe torturar-te,
- vou te estrangular.
***
Quando a gente é forte,
- quem se afasta? muito fresco,
- quem cai no ridículo? Quando a gente é mau, que fariam de nós? Se arrume, dance, ria,
- Nunca pude mesmo jogar o Amor pela janela.
***
- Minha amiga, mendiga, criança-monstro! Pra você é tudo igual, essas mal- amadas e suas intrigas, e meu embaraço. Junte-se a nós com sua impossível voz! único bajulador desse vil desespero. Manhã nublada, julho. Um gosto de cinzas flutua no ar;
- aroma de madeira suando na lareira,
- flores mofadas
- a confusão dos passeios
- a neblina dos canais pelos campos
- agora, que tal os joguinhos e o incenso?
***
Estendi cordas de campanário, a campanário; guirlandas de janela a janela; correntes de ouro de estrela a estrela, e danço.
***
O lago lá em cima se esfuma sem cessar. Que feiticeira vai subir do poente branco? Que frondescências violetas vão descer? ***
Enquanto recursos públicos se evaporam em festas de fraternidade, um sino de fogo rosa soa nas nuvens.
***
Avivando um cheiro bom de tinta da China, uma poeira negra chove docemente em minha vigília.
- Diminuo a luz do lustre, me jogo na cama, e, voltando pro lado da sombra, vejo vocês, minhas meninas! minhas rainhas!
Quando se reduzir a um só bosque negro para nossos quatro olhos atônitos,
- a uma praia para duas crianças fiéis,
- a uma mansão musical para nossa clara simpatia,
- vou te encontrar. Haja aqui embaixo só um velho solitário, calmo e bonito, em meio a um "luxo incrível",
- vou estar a teus pés. Assim que eu realize todas as tuas fantasias,
- sendo eu aquela que sabe torturar-te,
- vou te estrangular.
***
Quando a gente é forte,
- quem se afasta? muito fresco,
- quem cai no ridículo? Quando a gente é mau, que fariam de nós? Se arrume, dance, ria,
- Nunca pude mesmo jogar o Amor pela janela.
***
- Minha amiga, mendiga, criança-monstro! Pra você é tudo igual, essas mal- amadas e suas intrigas, e meu embaraço. Junte-se a nós com sua impossível voz! único bajulador desse vil desespero. Manhã nublada, julho. Um gosto de cinzas flutua no ar;
- aroma de madeira suando na lareira,
- flores mofadas
- a confusão dos passeios
- a neblina dos canais pelos campos
- agora, que tal os joguinhos e o incenso?
***
Estendi cordas de campanário, a campanário; guirlandas de janela a janela; correntes de ouro de estrela a estrela, e danço.
***
O lago lá em cima se esfuma sem cessar. Que feiticeira vai subir do poente branco? Que frondescências violetas vão descer? ***
Enquanto recursos públicos se evaporam em festas de fraternidade, um sino de fogo rosa soa nas nuvens.
***
Avivando um cheiro bom de tinta da China, uma poeira negra chove docemente em minha vigília.
- Diminuo a luz do lustre, me jogo na cama, e, voltando pro lado da sombra, vejo vocês, minhas meninas! minhas rainhas!
OPERARIOS
OPERÁRIOS
Ó a morna manhã de fevereiro. O vento sul importuno veio reavivar nossas lembranças de indigentes absurdos, nossa jovem miséria. Henrika vestia uma saia xadrez branca e marrom, em moda no século passado, uma boina com fitas e um lenço de seda. Era bem mais triste do que um luto. Dávamos um giro nos subúrbios. tempo nublado, e esse vento do Sul excitava todos os odores ruins de jardins arrasados e campos secos. E isso parecia cansar mais a mim que à minha mulher. Numa poça deixada pela cheia o mês passado, numa trilha lá em cima, ela me mostrou alguns peixinhos. A cidade, com suas fumaças e ruídos de ofícios, nos seguia tão longe nos caminhos. Ó outro mundo, morada abençoada por céu e sombras ! O vento Sul me fez lembrar miseráveis incidentes de infância, meus desesperos de verão, a horrível quantidade de força e de ciência que o destino sempre afastou de mim. Não! não passaremos o verão neste país mesquinho onde nada mais seremos que noivos órfãos. Quero que este braço teso não arraste mais uma imagem querida.
Ó a morna manhã de fevereiro. O vento sul importuno veio reavivar nossas lembranças de indigentes absurdos, nossa jovem miséria. Henrika vestia uma saia xadrez branca e marrom, em moda no século passado, uma boina com fitas e um lenço de seda. Era bem mais triste do que um luto. Dávamos um giro nos subúrbios. tempo nublado, e esse vento do Sul excitava todos os odores ruins de jardins arrasados e campos secos. E isso parecia cansar mais a mim que à minha mulher. Numa poça deixada pela cheia o mês passado, numa trilha lá em cima, ela me mostrou alguns peixinhos. A cidade, com suas fumaças e ruídos de ofícios, nos seguia tão longe nos caminhos. Ó outro mundo, morada abençoada por céu e sombras ! O vento Sul me fez lembrar miseráveis incidentes de infância, meus desesperos de verão, a horrível quantidade de força e de ciência que o destino sempre afastou de mim. Não! não passaremos o verão neste país mesquinho onde nada mais seremos que noivos órfãos. Quero que este braço teso não arraste mais uma imagem querida.
AS PONTES
AS PONTES
Céus de cristal gris. Bizarro desenho de pontes, estas retas, aquelas em arco, outras descendo em ângulos oblíquos sobre as primeiras, e essas figuras se renovam nos outros circuitos iluminados do canal, mas todas tão longas e leves que as margens, cheias de cúpulas, afundam e encolhem. Algumas dessas pontes ainda estão cheias de barracas, outras sustentam mastros, sinais, frágeis parapeitos. Acordes menores se cruzam, e somem, as cordas escalam os barrancos. Distingue-se uma roupa vermelha, talvez outros trajes e instrumentos musicais. São árias populares, trechos de concertos senhoriais, restos de hinos públicos? A água é gris e azul, larga como um braço de mar.
- E um raio branco, desabando do alto do céu, aniquila esta comédia.
Céus de cristal gris. Bizarro desenho de pontes, estas retas, aquelas em arco, outras descendo em ângulos oblíquos sobre as primeiras, e essas figuras se renovam nos outros circuitos iluminados do canal, mas todas tão longas e leves que as margens, cheias de cúpulas, afundam e encolhem. Algumas dessas pontes ainda estão cheias de barracas, outras sustentam mastros, sinais, frágeis parapeitos. Acordes menores se cruzam, e somem, as cordas escalam os barrancos. Distingue-se uma roupa vermelha, talvez outros trajes e instrumentos musicais. São árias populares, trechos de concertos senhoriais, restos de hinos públicos? A água é gris e azul, larga como um braço de mar.
- E um raio branco, desabando do alto do céu, aniquila esta comédia.
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